Este blog é composto de textos extraídos do belíssimo e raro livro de 1938 chamado "Novo Manual das Mães Cristãs" do Reverendíssimo Padre Theodoro Ratisbona da Editora Vozes.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

XIX. Paz Celeste


A paz! Eis ai a primeira e a ultima palavra do Evangelho!
               Os anjos a cantam em redor do berço de Belém: “Paz aos homens de boa vontade!” E o próprio Cristo, ao deixar a terra para subir ao céu, diz aos Apóstolos: Que a paz seja convosco: “Pax vobis!” Assim a paz é o dom evangélico que abre e encerra a serie de graças proporcionadas ao homem. É o doce fruto da santidade, mas é também a condição de seu amadurecimento.
               Todo o progresso da alma não é mais do que uma dilatação gradual na paz de Deus.
               Consideremos, todavia, que ela pressupõe lutas e vitórias. É por isso que Jesus Cristo, o “Príncipe da Paz”, nos declara que ele veio trazer a espada ao mundo. Enquanto há inimigos a combater, o repouso completo não é possível.
               “A paz – diz a Escritura Sagrada – não é concedida senão aos vencedores”; isto é, àqueles que superam o mal, triunfam de si mesmos e removem os obstáculos que se opõe ao reino de Deus. “Não há paz para os ímpios”, acrescenta o Livro Santo.
               Como de fato, poderiam gozar as delícias da harmonia e da paz os que violam a lei divina e se põem em contradição com a Vontade soberana que dirige o universo? A paz, este sopro do céu que sai das páginas do Evangelho, se oferece com liberalidade às almas retas; mas deve mui particularmente ser procurada pelas mães cristãs. Se o coração da mãe não é um foco de paz, tudo que a rodeia é mal estar e confusão. Os membros da família necessitam achar juntos ao coração materno a calma, a tranqüilidade de espírito e a serenidade que as ocupações da vida comumente perturbam nos homens do mundo. E é um triste e desgraçado obstáculo ao desenvolvimento do espírito de família e à perfeita educação dos filhos, achar-se uma mãe perpetuamente inquieta, preocupada e aflita. Contudo, isto é infelizmente, muito comum nos tempos que correm.
               Múltiplas causas atuam no seio das famílias para destruir o desejado sossego doméstico. A mãe que intimamente não possui a paz, como a poderá dar aos outro? Demais, a alma não é susceptível de nenhuma consolação religiosa, se não conservar disposições verdadeiramente pacíficas. A ausência destas disposições é a principal causa das distrações durante a oração, da indiferença nas leituras religiosas e da ineficácia da Santa Missa. Deus não se manifesta no meio das agitações: “non in commotione”, diz a Escritura. A sua voz não se faz ouvir senão no regaço da paz, porque ele não fala senão aos que  o escutam e não verte a sua graça senão na alma recolhida para receber e corresponder a esse dom.
               Por vezes dizeis que Deus não vos fala nunca. É um erro. Deus vos fala sim; vós é que o não ouvis porque, em vossas orações, só vós quereis falar, julgando perdido o tempo em que o não fazeis e não vos concentrais seriamente para receber do alto as inspirações que vos enchem de coragem, de confiança, paciência e bondade. A linguagem de Deus é diferente da nossa.
               Deus toca delicadamente as fibras da alma, inunda o espírito de luz, excita a nossa vontade, inclina para o bem o nosso coração e interiormente nos instrui com uma suave unção. Para discernir a voz divina é indispensável a calma, o silêncio, um brando recolhimento e certa disposição moral que muitas vezes nos falta. As Santas inspirações, tão desejáveis ao ministério maternal, não são jamais recusadas à prece, mas nós é que poucas vezes estamos em estado de distinguir o doce clarão que luz nas trevas. Isto é prejudicial não menos à própria mãe do que à família e à casa que se acham sob a sua responsabilidade. Carregada de apreensões e no desassossego do seu espírito, ela muitas vezes confunde o capricho com o dever; cai alternadamente em excesso de severidade ou de indulgência; as repreensões e as admoestações se multiplicam a esmo e fatigam os filhos; toleram-se grandes abusos, enquanto pequenas faltas não encontram desculpas e tantas palavras e esforços desordenados ficam sem efeito. Às vezes nem se atende à idade e à condição particular de cada filho, e continua-se a tratar um filho já crescido como se ainda estivesse em tenra infância.
               As impaciências mal contidas, enfim, destroem os bons frutos, que com os recursos moderados de um espírito calmo e pacífico se poderiam colher.
               Estes defeitos provêm de uma solicitude impetuosa e contraria aos preceitos divinos. Se a mãe de família está sempre fora da sua esfera, o fogo do seu lar se apaga.
               Ao verem-na constantemente entregue às preocupações extravagantes que a atormentam, os seus, ao princípio, a lastimam e depois a fogem. O esposo não se resolve facilmente a suportar para sempre tal suplício e vai procurar em outra parte, se não a paz, ao menos diversões que o façam esquecer a sua desgraça; e os filhos, por sua vez, apressam-se em seguir o exemplo do pai, sem embargo do amor que à sua mãe consagrem.
                Como, ao contrário, descansariam todos sob o olhar tranqüilo de uma mãe feliz! O só aspecto de uma alma simples e cândida e, em geral, a vista de tudo que está em paz, basta para apaziguar o coração do homem, mesmo o mais violento.
               Mães cristãs, pedi a paz, “pedi o que vos pode trazer a paz”! É dom de Deus por excelência. A vossa missão, como a dos anjos, é serdes mensageiras da paz. Vós sereis o conforto dos que se acham preocupados com os negócios do mundo, se, ao voltarem dos seus labores, os receberdes com um ar satisfeito e tranqüilo; e eles assim se fixarão no lar onde encontram ao mesmo tempo a doçura e a força da paz evangélica.
               Ninguém seguramente põe em dúvida estas vantagens; mas pergunta-se como se pode adquirir ou conservar a paz. A resposta está no Evangelho: “Pax hominibus bonae voluntatis!” A paz é dada “aos homens de boa vontade”.
               Ora, boa vontade pressupõe uma boa consciência, sem o que não há senão confusão e trevas. Se, pois, tendes sofrido alguns choques na consciência, recorrei à misericórdia de Jesus Cristo na Santa confissão, que veio a terra, não para vos condenar, mas para vos perdoar, purificar e absolver. “Ide em paz – diz-vos Ele pela boca de seus ministros – e não pequeis mais de ora avante”; palavra de vida esta, que o vosso Salvador vos repete todas as vezes que vos dispondes a ouvi-lo. Um sacramento vos restitui a paz; um outro sacramento a alimenta e a faz crescer em vós. Acalma-vos a penitencia e a comunhão vos fortifica.
               Então, com todas as suas forças, a alma cristã se levanta e firme se encaminha para a perfeição; as suas relações com Deus, como com o próximo, se tornam fáceis e agradáveis; a confiança se desenvolve; e ela, aprendendo a unir-se a Deus, gozará nesta concórdia intima e santa uma paz imperturbável, que sobrepuja vitoriosamente qualquer outro sentimento em contrário. 

Um comentário:

Taiana Froes disse...

Obrigada! Precisava mesmo deste texto hoje na minha vida! Que Deus nos ajude a saber pedir a paz que tanto necessitamos nesse tempo tao atribulado!